30 de agosto de 2016

Douradinho


Na Time Out Porto de Setembro, já nas bancas, lê-se a minha entrevista com Sofia Barbosa, aliás SofiaBBeauty; e uma refinadíssima selecção dos filmes mais hmmmm a estrear em sala ao longo do mês.

Temi Dollface - Beep Beep




Play 5/16 > Jazz age.

15 de janeiro de 2016

Axwell /\ Ingrosso


Cerveja, EDM e um acento circunflexo

A derradeira Where’s the Party? de 2015 abriga-se na Meo Arena e será uma cavalgada de luzes e bpms comandada por Axwell /\ Ingrosso. Conheça o plano pela mão de Jorge Lopes.

Esclareça-se logo à partida a questão que, de outra forma, ficaria a corroer a atenção do leitor: aquele símbolo que liga os nomes dos produtores suecos Axwell e Sebastian Ingrosso, espécie de acento circunflexo avantajado, recria (ou então, quem sabe, gerou) a forma que resulta da união de mãos da dupla, lado a lado, os braços esticados, lá em cima no púlpito das máquinas no palco. Em termos iconográficos, o /\ é uma ideia engenhosa ao nível do ovo de Colombo.

Axwell e Ingrosso esticarão de novo os braços, lado a lado, sexta-feira na Meo Arena, em mais um capítulo dos eventos Carlsberg Where’s the Party?, exemplares lusos das olímpicas raves de néon que tomaram conta do circuito mainstream global há coisa de uma década. É o terceiro e último Where’s the Party? do ano, também o primeiro a acontecer debaixo de tecto, e o que promete soa familiar: uma maratona de música electrónica centrada na mistura de house e tecno e repleta de ganchos pop de cores fluorescentes. Um preparado que ganhou o nome vago de EDM (iniciais de Electronic Dance Music), graças à entrada em força da ideia de rave América adentro a partir do século XXI. A experiência é imersiva, a escala épica e festivaleira, de densa produção luminotécnica e devidamente legalizada. 

Os cabeças de cartaz formavam dois terços dos enormemente bem sucedidos Swedish House Mafia (ou seja, só falta Steve Angello). Em vez de retomarem as carreiras a solo que já trilhavam antes das aventuras do super-grupo entre 2005 e 2013, Sven Axel Christofer Hedfors (aliás Axwell) e Sebastian Carmine Ingrosso rejuntaram-se logo em 2014. Há um álbum prometido para breve, para engordar uma discografia que até agora se resume a cinco singles despejados entre o ano passado e este.

O cartaz de Where’s the Party? completa-se com um trio de nomes portugueses de sensibilidades diferentes. O experiente Diego Miranda há já algum tempo que se abeirou, sem atritos, da experiência comunal EDM e da pop que com ele se dá bem – “Turn the Lights Off”, lançada este Verão e com Mikkel Solnado na voz, exemplifica-o. Já DJ Ride é outra coisa: tem hip-hop no ADN e uma habilidade premiada na manipulação do vinil, independentemente dos terrenos para onde a curiosidade o leva no mapa da electrónica: dubstep, drum ’n’ bass, etc. A dupla Club Banditz, com raízes em Coimbra e formada por Gonçalo Julião e João Coelho, também está habituada a pisar palcos e cabines de vários países e continentes, engendrando uma variante de EDM mais musculada.

(Antevisão de concerto publicada na Time Out Lisboa em Dezembro de 2015.)

14 de janeiro de 2016

Coldplay


Coldplay
A Head Full of Dreams
Parlophone/Warner
3/5

Os Coldplay regressam a um caminho mais familiar, depois do relativo mergulho nas profundezas no invernoso Ghost Stories, de 2014. As 11 canções de A Head Full of Dreams voltam à pop-rock fluorescente e grandiloquente de Mylo Xyloto (2011), a que juntam um ligeiro suplemento electrónico dançável que os Stargate, produtores executivos, devem ter introduzido. Eis os U2ismos do tema-título, com coro de estádio e guitarra de Jonny Buckland via The Edge. Mais o middle of the road brando, para piano e caixa de ritmos, de “Everglow”, com Gwyneth Paltrow na área, uma canção-que-já-se-escreveu-vezes-mais-do-que-suficientes-obrigado. E pensar que este capítulo da carreira dos Coldplay havia começado com “Adventure of a Lifetime”, single coceguento à altura de esforços semelhantes e meritórios dos Maroon 5 e Nickleback, outras bandas rock a exercitar músculos disco-funk.

Os desvios ao programa prévio têm resultados diversos: “Hymn for the Weekend” é dominado por um refrão Destiny’s Child, e assim seria mesmo que Beyoncé não participasse no tema, discretamente. E depois há faixas de onde apetece expropriar as boas ideias audíveis e depositá-las em mãos com mais rasgo – sobretudo “Army of One”, com os acordes densos de órgão e a voz seccionada e feita riff da primeira parte, e o instrumental arrastado mas eléctrico e o aparente vocoder da segunda, subintitulada “X Marks the Spot”.

Os Coldplay, que não há maneira de saírem do meio da ponte onde tentam ser um pouco de tudo para todos, continuam a dever ao mundo um álbum funk/ EDM/ r&b/ hip-hop. Devem ter estofo para isso – ou, pelo menos, para discos de boa e humanista e inspiradora mensagem mas menos rotineiros do que A Head Full of Dreams.

(Publicado na Time Out Lisboa em Janeiro de 2016.)

Coisas que definem as coisas

(Via ILX. Em itálico, neilasimpson. No resto, Alex Macpherson. Alex está 200% certo e não, esta discussão não começou hoje, mas convém sublinhar o essencial a intervalos regulares.)

the whole axis of let's call it 'avant garde club music' like arca/rabit/lotic/sd laika. even if you're familiar with all the precedents and influences involved (idm, industrial, trance, whatever), it still sounds very 'now' to me because of the way it references and flips the tropes of recent dance music

i have no idea how any of these artists are avant garde or "new". and not necessarily because others have done it before, but i don't hear where the freshness is. i think "nowness" is not a specifically definable trait and also shouldn't be confused with "cutting edge"

my interest in this topic comes from things like Simon Reynolds' Retromania and Mark Fisher's Ghosts of My life, which discuss the causes and manifestations of a lack of interest in the future, a lack of faith in it, and a general inability to conceive of or create a future that's too different to our present

i guess firstly stop taking that bollocks seriously and actually engage with what people and artists are doing rather than what over-the-hill theorists think is happening? firstly i don't think an obsession with futurism is laudable in and of itself, secondly an interest in the future doesn't have to sound "futuristic" (scare quotes crucial as it often denotes a very specific and well-trodden sonic path). it's not that people can't conceive of a future, it's that their conception of what the future should sound like is very limited

13 de janeiro de 2016

Heidi



Heidi
De Alain Gsponer
Alemanha/Suíça, 106 minutos, ver listas
2/5 

De longe, o problema principal desta adaptação cinematográfica da história da miúda dos Alpes e do avô, escrita por Johanna Spyri e revelada em 1880, é um problema de Portugal. A versão que cá chega é dobrada, opção tola e redutora mesmo quando bem-feita e no universo abstracto da animação. Esta Heidi é de seres humanos, a produção é alemã e suíça, o cenário da narrativa também, o elenco central idem aspas. Mas o que cá se ouve é português de Lisboa, em que Heidi pergunta pelo “chóriço” e Clara, a amiga em cadeira de rodas cuja família abastada de Frankfurt compra Heidi para lhe fazer companhia, terá uma inusitada costela do Parque das Nações.
Uma pena, já que por trás do ruído linguístico absurdo está uma obra bem decente; sem choraminguice; com um elenco de miúdos desempoeirados (Anuk Steffen, a protagonista) e veteranos virtuosos (Bruno Ganz, o avô monossilábico de Heidi); servida por uma fotografia que tanto explora as belíssimas cores e texturas dos Alpes como tira partido da formidável minúcia na recriação de interiores e exteriores de uma Frankfurt pós-Revolução Industrial; e que só perde pontos na banda sonora orquestral intrusiva do costume e na gestão da narrativa – um terço final mais conciso teria feito maravilhas.

(Publicado em Janeiro de 2016 na Time Out Lisboa.)

12 de janeiro de 2016

Enrique Iglesias



Enrique Iglesias
Meo Arena

No princípio, Enrique era Martinez e não Iglesias. Mas quer ele quisesse, quer não, o cavalheiro agora com 39 anos sempre foi um privilegiado – porque um background da dimensão do pai Julio nunca pode não ser de algum modo útil quando se opta pelas cantigas; porque cedo se habituou a chamar casa a Miami, capital do interface entre a pop latina e a anglo-americana; e porque ele, Enrique, tem um ror de talento.

O caminho que vem percorrendo no showbiz tornou-se familiar: início em meados dos anos 1990 focado no público hispânico, o sucesso a transbordar para o resto do planeta já neste século. E tanto no caso de Enrique Iglesias como de parceiros de rota do calibre de Shakira e Pitbull, tem sido mais um caso da cultura popular de costela anglófona se aproximar do mercado latino (e, pormenor crucial, do afro-latino) do que do movimento contrário. É confirmar domingo, na Meo Arena, num serão onde Mickael Carreira brotará para repetir o dueto em “Bailando”, uma das faixas do ainda último registo de Iglesias, o quente e compacto mas variado Sex and Love, saído há quase dois anos.

(Antevisão de concerto publicada em Dezembro de 2015 na Time Out Lisboa.) 

11 de janeiro de 2016

Justin Bieber



Justin Bieber
Purpose
Def Jam/Universal
3/5

Justin Bieber está mais choramingão, um problema que afecta demasiados adultos. Por isso, esclareça-se já que os singles previamente conhecidos, e onde esse defeito está sob controlo, são do melhor que se encontra em Purpose: house tropical em “What Do You Mean?” e “Where Are Ü Now?”, um pouco de dancehall em “Sorry”. A que se junta o mergulho pop-EDM, directo e ortodoxo, em “Children”. Três destas quatro canções têm mão de Skrillex, sem o qual este disco aproximar-se-ia do indigesto.

A câmara lenta umas vezes resulta, outras não. Nem é uma questão de excesso de introspecção nocturna, antes da textura, que já está batida, e do ensimesmamento de alguns exemplares. Sabia-se que ter Bieber a sós com uma guitarra é pretexto para a lamúria porque já houve um álbum inteiro disso, Believe Acoustic, em 2013, o que prepara o ouvinte para a dolência de “Love Yourself”. “The Feeling” é um refrão à procura de uma canção, a interpretação do canadiano ainda mais evanescente do que no resto de Purpose. “Life Is Worth Living” e o tema-título hão de ser sentidos, mas estão naquele ponto em que uma balada ao piano oscila na extremidade do penhasco das ideias gastas e cai. A excepção é “I’ll Show You”, com o contraponto dos lençóis sintéticos e melódicos no refrão.

Pelo álbum passa também uma sensação de cansaço crepuscular, e de excesso precoce de tudo, que já atravessava Revival, da contemporânea (e ex-namorada) Selena Gomez, bem exemplificada pelo synth-funk de “Company”. As slow-jams existenciais com rappers a ajudar (Big Sean aqui, Travi$ Scott acolá) também resultam em arquitecturas satisfatórias. Ainda assim, e apesar da busca louvável e necessária de rumo, Justin Bieber tenta desta vez ser mais coisas do que o arcaboiço criativo permitia, acabando com um álbum irregular no regaço, uma longa (18 faixas na edição Deluxe) sucessão aleatória de joias e soporíferos. 

(Publicado em Dezembro de 2015 na Time Out Lisboa.)

8 de janeiro de 2016

Krampus: O Lado Negro do Natal



Krampus: O Lado Negro do Natal
De Michael Dougherty
EUA, 98 minutos
3/5

O Lado Negro do Natal não será bem o que se imagina. Pode ter aparência de filme de terror mas não há uma cena de sadismo e sangue e membros cortados. Pode ter o punhado de valores cristãos que vêm à tona na quadra a nortear alguma moral do enredo mas Krampus, a figura meio humana, meio bode, que baixa sobre uma família desavinda nas vésperas de Natal, tem prováveis raízes em tradições pagãs germânicas (e os duendes que o servem também nada possuem de católico). Pode ter um elenco que vai tombando ao longo da acção como mandam as convenções terroríficas, mas o final troca as voltas e planta vestígios lynchianos.

A tempestade de neve impiedosa que prende a abonada família de Tom (Adam Scott) e Sarah (Toni Collette) em casa, numa difícil partilha de espaço com a pouco suportável prole white trash de Howard (David Koechner) e Linda (Allison Tollman), irmã de Sarah, gela até o ecrã. A luz pálida dos dias e a lareira das noites reforça o efeito de cerco por forças até certa altura invisíveis. O humor ocasional, embora batido, poupa a plateia à estupidez. É coisa feita com boa seriedade e secura, convencional e nonsense q.b. E é sempre um prazer ver Conchatta Ferrell (Dois Homens e Meio) numa tia desbragada, alcoólica e valente. 

(Publicado em Dezembro de 2015 na Time Out Lisboa.)

7 de janeiro de 2016

Anacleto: Agente Secreto


Anacleto: Agente Secreto
De Javier Ruiz Caldera
Espanha, 87 minutos
2/5

Este filme de espiões em regime hereditário tem qualquer coisa de Quentin Tarantino no gozo quase infantil como brinca com códigos de género cinematográficos e na forma casual como introduz pormenores de violência extrema. E também tem algo do Pedro Almodóvar dos diálogos de elevado ritmo e no humor que, tal como a violência, sai quase como quem respira, além de pelo menos dois actores emblemáticos do realizador de Saltos Altos, Rossy de Palma e Carlos Areces.

Areces é Vázques, criminoso em fuga, obcecado com a eliminação de Anacleto (Imanol Arias), o agente veterano que o despachou para 30 anos de prisão. Já de Palma aparece fugazmente na pele de informadora de Vázquez e mãe de Katia (Alexandra Jiménez), a médica que está fartinha da relação com Adolfo (Quim Gutiérrez). Adolfo é uma mosca morta, vigilante nocturno e adepto de vegetar no sofá e achar que o mundo lhe deve uma vida. Mas Adolfo também é o filho de Anacleto e, quando a situação o exige, o inconsciente vem à tona e descobre-se ali um outro agente secreto, os reflexos treinados pelo pai na infância. Em que resulta tudo isto? Num preparado engraçadinho, negligenciável, que Espanha deve cozinhar às paletes diárias.

(Publicado em Dezembro de 2015 na Time Out Lisboa.)

6 de janeiro de 2016

A Tribe Called Quest



A Tribe Called Quest
People’s Instinctive Travels and the Paths of Rhythm
Zomba/Sony Music
5/5

No vívido texto no livreto desta reedição, Harry Allen (“Hip-Hop Activist & Media Assassin”, é o que ele é) sublinha o quanto de Nova Iorque existe neste álbum de estreia dos A Tribe Called Quest lançado há 25 anos. Um álbum de quatro rapazes de Jamaica, Queens, crescidos nos anos 1970, que aqui trilham uma viagem de 14 canções que suplantam códigos de género musical.

O paradigma em People’s… é, até certo ponto, novo. Há afinidades com as outras bandas do movimento Native Tongues (Jungle Brothers e De La Soul, ambos com música de monta saída antes de 1990) mas isto é outra coisa: os A Tribe Called Quest vêm da ala mais minimal e vidrada nas minúcias do ritmo. As canções de Jarobi White, Ali Shaheed Muhammad, Phife Dawg e Q-Tip são lúdicas, fluídas, articuladas de pensamento e politicamente correctas na melhor acepção do termo, abertas, inteligentes, humoradas, quentes. E inventivas no emprego de samples, tão impregnados na matriz das canções que estas se assemelham a releituras – “Walk on the Wild Side” nasceu para ser revista, solta e melhorada em “Can I Kick It?”, um caleidoscópio de divertimento.

Amparando os clássicos “I Left My Wallet in El Segundo”, “Bonita Applebum”, “Can I Kick It?” e “Ham ‘n’ Eggs” há outras ousadias. Como uma faixa de abertura que é um manifesto de intenções de sete minutos (“Push It Along”) e uma dupla final (“Go Ahead in the Rain” e “Description of a Fool”) que parte rumo a uma linha do horizonte sem vozes, extensas e guiadas pelo funk. O scratch preciso e os ritmos fundos e crocantes de People’s… dão sustento ao lema do grupo (“the art of moving butts”), num disco que continua a fazer sentido na conversa estética contemporânea do hip-hop e da pop.

(Publicado na Time Out Lisboa em Dezembro de 2015.) 

31 de dezembro de 2015

37 discos com 2015 dentro

Primeiro o primeiro, depois por ordem alfabética.




Blackheart - Dawn Richard

Back to the Woods - Angel Haze
The Blade -Ashley Monroe
Bruta - Bruta
Emotion - Carly Rae Jepsen
Storyteller - Carrie Underwood
Alma do Meu Pai - DJ Firmeza
Revolução 2005-2008 - DJ Marfox
Sold Out - DJ Paypal
Surf - Donnie Trumpet & The Social Experiment
But You Can't Use My Phone - Erykah Badu
More Love - Flava D
Dirty Sprite 2 - Future
Breathe In, Breathe Out - Hillary Duff
#TheGiftRap EP - Honey Cocaine
Dream a Garden - Jam City
Unbreakable - Janet Jackson
Reality Show - Jazmine Sullivan
To Pimp a Butterfly - Kendrick Lamar
Short Movie - Laura Marling
Levon Vincent - Levon Vincent
Balas y Chocolate - Lila Downs
Coin Coin Chapter Three: River Run Thee - Matana Roberts
Wildheart - Miguel
Rose Hall - Natasha Mosley
Danger - Nídia Minaj
Nozinja Lodge - Nozinja
Dale - Pitbull
HitNRun - Prince
Double Vision - Prince Royce
Sremmlife - Rae Sremmurd
A Quien Quiera Escuchar - Ricky Martin
Covered - Robert Glasper
Morning Worship - Sabre
Revival - Selena Gomez
Ten Love Songs - Susanne Sundfor
Communion - Years & Years